sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Eu, prisioneira das Farc




Bem, como a foto pode comprovar, minha leitura das férias foi o livro:



“O relato da companheira de seqüestro de Ingrid Betancourt nos seis anos de cativeiro, sua gravidez, seu filho e a luta para fugir da guerrilha colombiana”.


Publicado pelo Grupo Ediouro, o livro tem 206 páginas e apresenta narração em 1ª pessoa, pois foi escrito pela própria Clara, em julho de 2008, quando havia apenas 06 meses que gozava de sua liberdade.

Em fevereiro de 2002, durante uma visita à cidade de San Vicente del Caguán - acompanhadas apenas de um motorista, um cinegrafista e um jornalista francês - Clara Rojas (diretora da campanha do Partido Verde Oxigênio) e Ingrid Betancourt (candidata à presidência da Colômbia) foram sequestradas pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Só para vocês entenderem um pouco, com esses sequestros de políticos e civis, as Farc pretendiam pressionar o governo para obter um acordo humanitário de troca de seqüestrados por guerrilheiros presos.

O livro conta os momentos difíceis que ela passou durante os 06 anos em que esteve sob o poder das Farc, como as exaustivas caminhadas, a falta de comida, o ambiente hostil da selva, a gravidez inesperada, a falta de liberdade e, principalmente, a solidão:

“O cativo é despojado bruscamente de tudo, de seus entes queridos e de seus afazeres diários. Perde por completo o controle de sua própria vida e de tudo que o cerca. A única coisa que lhe resta é seu próprio ser. Encontra-se sozinho diante de si mesmo. Sem mais nada.”


Além de privados de sua liberdade, os prisioneiros também enfrentaram os desafios impostos pela selva: vive-se sempre à sombra - já que a luz do sol não entra diretamente por causa das folhagens gigantescas. Mesmo assim o clima é asfixiante, quente e abafado durante o dia e à noite a temperatura cai bruscamente. Os guerrilheiros sempre escolhiam para seus acampamentos os lugares mais fechados da selva, para não serem localizados pelos aviões do exército e quase todos os dias mudavam de lugar, avançando a pé, em extenuantes caminhadas.

Durante os seis anos de cativeiro, elas chegaram a tentar fugir por duas vezes, mas os planos fracassaram. Em uma dessas tentavas frustradas, elas foram acorrentadas durante um tempo, fato que deixou marcas horríveis em Clara, visto que elas foram tratadas como animais e só eram soltas para fazerem suas necessidades básicas. Só conseguiram o direito de não permanecerem acorrentadas graças à pressão que fizeram através de um jejum que durou nove dias.


Dois fatos me intrigaram na leitura do livro:

O primeiro é o fato de Clara ter ficado grávida durante o período em que esteve no cativeiro. Ela engravidou em uma situação que é uma incógnita, deu à luz no meio do mato com a barriga aberta a faca e meses depois do nascimento tiraram o bebê dos seus braços. Que drama, hein!
Bem, eu não acredito que o pai de seu filho seja algum guerrilheiro, pois ela mesma já confessou que o contato que tinha com eles era mínimo, pois se limitavam a vigiar, alimentar e atender os prisioneiros e raramente falavam com estes. O que me faz pensar que deve ser algum prisioneiro, mas o problema é que em nenhum momento do livro há referência a alguma pessoa que pudesse ser próxima de Clara.
Outra possibilidade é que ela tivesse sido vítima de um estupro, mas eu acredito que se fosse isso ela iria denunciar, né?! Mas enfim, o fato é que nos capítulos em que escreveu sobre sua gravidez, a autora optou por não tornar público o que aconteceu e ainda se queixou das várias especulações que obviamente surgiram a respeito:

"Cabe a mim decidir o que tornar público ou não sobre a minha história. Esse episódio pertence exclusivamente a minha esfera privada. É reservado a meu filho Emmanuel, quando me perguntar sobre isso. Ainda não é o momento. A única coisa que quero dizer é que durante o sequestro vivi uma experiência que me deixou grávida. Mas minha verdadeira história de amor começou quando descobri que estava esperando um filho e decidi salvar sua vida."



O segundo ponto intrigante é a relação entre Clara e Ingrid. Elas pareciam próximas, mas durante o tempo de confinamento no cativeiro se afastaram... O que eu achei muito estranho, já que Clara se enfiou nessa confusão pelo fato de acompanhar Ingrid na viagem à San Vicent Del Caguán. Elas mal conversavam, apenas liam a Bíblia e comentavam sobre o que haviam lido. Clara afirma que não houve nenhum fato concreto que rompesse a amizade, apenas um distanciamento progressivo causado pelas circunstâncias, que criou uma barreira que até hoje elas não conseguiram superar.
Não gosto de fazer julgamentos, mas a impressão causada pela minha leitura é que a própria Clara se isolou, pois além de não conversar mais com Ingrid também não desenvolveu contatos com outras pessoas, fato que fica claro em algumas passagens do livro:

“Vivia confinada em um mundo de silêncio, no qual não falava com ninguém, a ponto de quase perder o costume de que alguém me dirigisse a palavra (...) Eu me sentia completamente ignorada como ser humano.”


Concluindo, a leitura do livro é obrigatória, pois além de tratar de um fato recente de nossa história, também nos propicia refletir sobre os sentimentos dos seres humanos, quando vivem em uma situação-limite e lutam por sua sobrevivência. Clara também explica o porquê de contar sua história e o que ela pretende com isso:

“... quis publicar meu testemunho para que fique para meu filho e para as novas gerações que ele representa, porque desejo um país em que primem a reconciliação, o perdão, a tolerância, o crescimento e a paz. E, por último, para aproximar o leitor de minha experência e fazê-lo compreender as dificuldades que sofre e superei, e, em suma, para que a leitura deste livro semeie uma inquietude em seu coração."


Mais informações no site do livro: http://www.euprisioneiradasfarc.com.br/

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Clarice e a liberdade


"Ela é tão livre que um dia será presa.
'Presa por quê?'
'Por excesso de liberdade'.
'Mas essa liberdade é inocente?'
'É'. 'Até mesmo ingênua.'
'Então por que a prisão?'
 'Porque a liberdade ofende.'"

Um sopro de vida (Pulsações), Clarice Lispector



Segundo meu amigo Aurélio, Liberdade é:
1.Faculdade de cada um de decidir ou agir segundo sua própria determinação.
2.Poder de agir, no seio de uma sociedade organizada, segundo a própria determinação.
3.Confiança, familiaridade e intimidade.

Mas o que é ser livre? Para mim é escolher o que quero, sabendo que devo arcar com a escolha que fiz, dentre as diversas possibilidades que tenho. Sou livre para escolher, mas tenho que assumir as conseqüências de minhas ações e omissões e me acostumar, aos poucos, com o julgamento dos ofendidos.

Talvez seja por isso que algumas pessoas agem como pássaros feridos: conseguem voar, mas sentem muita dor.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Liberdade na vida





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